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Repertório sociocultural: o que é e exemplos para a redação do ENEM

Como o INEP avalia o repertório na Competência 2, a diferença entre repertório produtivo e de enfeite e exemplos prontos para estudar por eixo.

•11 min
Repertório sociocultural: o que é e exemplos para a redação do ENEM

Repertório sociocultural é todo conhecimento de fora da proposta que você leva para a redação para sustentar um argumento: um artigo de lei, o conceito de um pensador, um fato histórico, um dado de pesquisa, um filme ou um livro. No ENEM, ele vale pontos na Competência 2, e a banca observa se a referência tem base em alguma área do conhecimento e se ela ajuda de fato a provar o que você afirma sobre o tema.

Neste guia você vai ver o que conta como repertório, como o INEP avalia esse critério, por que o famoso "repertório coringa" virou alvo da banca e uma lista de exemplos organizados por eixo temático, cada um com uma linha sobre como usar.

O que é repertório sociocultural

Repertório é acervo: aquilo que você já leu, assistiu ou estudou e consegue trazer para o texto quando precisa sair do "eu acho" e mostrar de onde vem a sua afirmação.

Os tipos que mais funcionam:

  • Leis e documentos oficiais: Constituição Federal, Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei de Diretrizes e Bases da Educação, tratados internacionais.
  • Conceitos de pensadores: sociólogos, filósofos, historiadores, educadores.
  • Fatos históricos: processos que ajudam a explicar por que um problema existe hoje.
  • Dados de instituições confiáveis: IBGE, IPEA, Fiocruz, OMS, ONU, sempre com a fonte e o ano.
  • Obras culturais: filmes, livros, séries, músicas, obras de arte.

Ficam de fora o ditado popular, a experiência pessoal ("na minha escola acontece isso"), a notícia sem fonte e as informações copiadas dos textos motivadores. A coletânea da prova serve para você entender o recorte do tema. Repetir o que ela diz não conta como repertório seu, e redações que se apoiam só nela não chegam às notas mais altas da Competência 2.

Como o repertório sociocultural é avaliado no ENEM

A Competência 2 avalia se você compreendeu a proposta e aplicou conceitos de várias áreas do conhecimento para desenvolver o tema dentro do formato dissertativo-argumentativo. Na grade do INEP, o nível máximo (200 pontos) descreve uma redação que desenvolve o tema "por meio de argumentação consistente, a partir de um repertório sociocultural produtivo". Se quiser ver como as cinco notas se somam, o guia de competências da redação do ENEM detalha cada uma.

Os materiais de formação do INEP costumam resumir o que se espera do repertório em três critérios:

  1. Legitimado: tem respaldo em alguma área do conhecimento. Um artigo da Constituição tem. Um "dizem por aí" não tem.
  2. Pertinente: conversa com o recorte específico da proposta.
  3. Produtivo: trabalha a favor do argumento. Você explica a referência e mostra como ela sustenta a sua tese.

É no terceiro critério que a maioria perde pontos: uma referência verdadeira e ligada ao tema, mas jogada numa frase solta, é lida como pouco produtiva.

Há também um alerta recente. As Cartilhas de Redação do ENEM de 2025 e de 2026 chamam atenção para os repertórios de bolso, que o INEP descreve como "referências prontas, memorizadas e frequentemente utilizadas" de forma genérica, "sem uma conexão genuína com o tema proposto". Na avaliação, esse uso tem a produtividade reduzida.

Repertório produtivo x repertório de enfeite

Veja a diferença usando o tema da redação do ENEM 2025: "Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira".

De enfeite: "Segundo Aristóteles, o homem é um animal político. Dessa forma, os idosos sofrem com o abandono na sociedade brasileira."

A citação existe, mas não diz nada sobre envelhecimento e não prova a frase seguinte. Ela está ali para parecer culta, e o corretor percebe.

Produtivo: "O Estatuto da Pessoa Idosa estabelece que família, comunidade, sociedade e poder público devem assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, o direito à saúde e à convivência familiar e comunitária. Na prática, muitas cidades ainda não oferecem transporte acessível nem espaços de convivência, o que empurra parte dessa população para o isolamento. A distância entre o que a lei garante e o que o idoso encontra na rua mostra que o problema está na falta de políticas que tirem esse direito do papel."

Aqui a lei tem função: ela estabelece um direito, o parágrafo mostra que esse direito não se cumpre e a conclusão do parágrafo amarra os dois.

Um teste rápido para revisar o seu texto: apague a frase do repertório e releia o parágrafo. Se nada mudou no raciocínio, aquela referência era enfeite.

Existe repertório sociocultural para qualquer tema?

Existem referências versáteis, que cabem em muitos temas. A Constituição de 1988 é o melhor exemplo: o artigo 6º lista como direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados. Quase todo tema do ENEM esbarra em um desses direitos. A Agenda 2030 da ONU, com seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), funciona de forma parecida.

O problema começa quando o candidato usa a mesma frase pronta em qualquer proposta. Professores de redação apontam que conceitos repetidos à exaustão em redações-modelo, como as "instituições zumbis" de Zygmunt Bauman ou a Utopia de Thomas More citada de forma vaga, viraram exemplos típicos de repertório de bolso. Os autores seguem válidos, só que o encaixe genérico derruba a nota.

Então use o repertório sociocultural coringa como ponto de partida e faça o recorte. Em vez de "a Constituição garante direitos a todos", cite o direito específico que o tema discute e explique por que ele não está sendo cumprido naquele caso.

Exemplos de repertório sociocultural por eixo

Os temas do ENEM giram em torno de grandes eixos (o post sobre eixos temáticos da redação do ENEM mostra como identificar cada um). Abaixo, repertórios que você pode usar com segurança, cada um com uma ideia de aplicação.

Repertório para educação

  • Constituição Federal, art. 205: define a educação como direito de todos e dever do Estado e da família, voltada ao pleno desenvolvimento da pessoa e ao preparo para a cidadania. Use em temas de acesso à escola e evasão.
  • Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido: Freire critica a "educação bancária", em que o professor apenas deposita conteúdo num aluno passivo. Serve para discutir ensino descontextualizado e formação crítica.
  • Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9.394/1996): prevê atendimento educacional especializado para estudantes com deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino. Bom para temas de inclusão.
  • Filme Que Horas Ela Volta? (2015, Anna Muylaert): a filha de uma empregada doméstica chega a São Paulo para prestar vestibular de arquitetura e expõe a barreira de classe dentro da casa dos patrões. Funciona em temas de desigualdade no acesso ao ensino superior.

Repertório para saúde

  • Constituição Federal, art. 196: "A saúde é direito de todos e dever do Estado". Base para temas sobre acesso ao SUS e saúde mental.
  • Byung-Chul Han, Sociedade do Cansaço: o filósofo descreve uma sociedade do desempenho, em que cada pessoa se cobra produtividade até a exaustão, e associa esse modelo ao avanço da depressão e do burnout. Encaixa em temas de saúde mental e trabalho.
  • Dado do IBGE: o Censo 2022 identificou, pela primeira vez, 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de transtorno do espectro autista no Brasil (1,2% da população), segundo divulgação de maio de 2025. Use em temas de inclusão e acesso a diagnóstico.

Repertório para meio ambiente

  • Constituição Federal, art. 225: todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, e cabe ao poder público e à coletividade defendê-lo para as presentes e futuras gerações. A expressão "futuras gerações" rende bem na proposta de intervenção.
  • Agenda 2030 da ONU: o ODS 13 trata de ação contra a mudança global do clima, e o ODS 12, de consumo e produção responsáveis. Use para mostrar que o problema tem metas internacionais assumidas pelo Brasil.
  • Ailton Krenak, Ideias para adiar o fim do mundo (2019): o pensador indígena critica a ideia de uma humanidade separada da natureza. Combina com temas de desmatamento e povos tradicionais.
  • Curta Ilha das Flores (1989, Jorge Furtado): acompanha um tomate da plantação até um lixão onde pessoas disputam restos de comida com porcos. Serve para temas de consumo e desperdício de alimentos.

Repertório para tecnologia

  • Documentário O Dilema das Redes (2020): ex-funcionários de grandes empresas de tecnologia explicam como as plataformas são desenhadas para prender a atenção do usuário. Use em temas sobre vício em telas e saúde mental de jovens.
  • Shoshana Zuboff e o "capitalismo de vigilância": a autora descreve um modelo de negócio que transforma dados de comportamento em matéria-prima para prever e influenciar ações. Encaixa em temas parecidos com o de 2018, sobre manipulação pelo controle de dados.
  • Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) e LGPD (Lei 13.709/2018): as duas leis definem direitos do usuário e regras de proteção de dados no Brasil. Bom para a proposta de intervenção.
  • Lei 15.100/2025 e ECA Digital (Lei 15.211/2025): a primeira restringe o uso de celulares nas escolas, inclusive no recreio. A segunda, em vigor desde março de 2026, cria regras para proteger crianças e adolescentes em ambientes digitais. Mostram que o tema está na agenda do Estado.

Repertório para cidadania e direitos

  • Constituição Federal, art. 5º: todos são iguais perante a lei. Base para qualquer tema de discriminação.
  • Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/1990): garante a crianças e adolescentes prioridade absoluta na efetivação de seus direitos. Use em temas de trabalho infantil e proteção on-line.
  • Carolina Maria de Jesus, Quarto de Despejo (1960): diário de uma catadora de papel na favela do Canindé, em São Paulo, que registra a fome no dia a dia. Funciona em temas de pobreza e insegurança alimentar.
  • Filme Bacurau (2019, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles): um povoado do sertão some dos mapas e precisa se defender sozinho. Serve como metáfora para comunidades invisíveis ao poder público.

Repertório para cultura e memória

  • Constituição Federal, art. 215: o Estado deve garantir a todos o pleno exercício dos direitos culturais e o acesso às fontes da cultura nacional. Útil em temas de acesso à cultura, como o de 2019, sobre cinema.
  • Lei 10.639/2003: tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas. Conversa diretamente com temas de valorização da herança africana.
  • Filme Ainda Estou Aqui (2024, Walter Salles): conta a história de Eunice Paiva depois do desaparecimento do marido, Rubens Paiva, durante a ditadura militar. Venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025. Use em temas de memória e direito à verdade.

Filmes para repertório de redação

Filme vale tanto quanto um livro, desde que você conheça a obra e saiba resumir em uma frase o que ela mostra sobre o tema.

FilmeAnoEixos em que funciona
Que Horas Ela Volta?2015Educação, desigualdade de classe
Vida Maria (curta)2006Educação, ciclo da pobreza
Central do Brasil1998Analfabetismo, laços sociais
Bacurau2019Invisibilidade, abandono do Estado
O Dilema das Redes2020Tecnologia, saúde mental
Ilha das Flores (curta)1989Consumo, fome
Estrelas Além do Tempo2016Racismo, mulheres na ciência
Ainda Estou Aqui2024Memória, direitos humanos

Uma regra: se você só viu o trailer, deixe o filme de fora. Repertório mal lembrado vira erro de informação, e isso pesa contra você.

Como guardar esses repertórios

O repertório que fica na memória é o que você reescreveu com as próprias palavras e já testou numa redação. O passo a passo para montar essas fichas por eixo está no post sobre caderno de repertório para redação.

Para testar, use a lista de possíveis temas da redação do ENEM 2026: escolha um tema, puxe dois repertórios desta página e escreva o parágrafo de desenvolvimento.

Para saber se o encaixe ficou produtivo, você precisa de retorno. No app da Educt você fotografa a redação manuscrita ou cola o texto e recebe em segundos a nota e o feedback por competência no modelo do ENEM, inclusive na Competência 2. O plano gratuito corrige 4 redações por mês e dá acesso aos temas dos últimos anos.

Perguntas frequentes

O que é repertório sociocultural na redação do ENEM?

É qualquer conhecimento externo à proposta que você usa para sustentar um argumento, como uma lei, um conceito, um fato histórico, um dado ou uma obra cultural. Ele é avaliado na Competência 2. Para render nota, precisa ter base em alguma área do conhecimento, ter relação com o tema e ser explicado dentro do argumento.

Quantos repertórios devo usar na redação?

Um repertório bem explicado em cada parágrafo de desenvolvimento costuma bastar. Dois por parágrafo funcionam se os dois tiverem função clara; mais do que isso vira lista de citações.

Repertório sociocultural coringa ainda funciona?

Referências versáteis, como a Constituição de 1988 e os ODS da ONU, continuam válidas. O que o INEP critica são os "repertórios de bolso", frases decoradas e encaixadas de forma genérica em qualquer tema. Use a referência versátil, mas ligue ao recorte específico da proposta.

Filme e série contam como repertório sociocultural?

Contam. Obras de ficção são repertório legítimo, desde que você as cite com precisão e explique como a história ajuda a entender o problema do tema.

Posso usar dados sem lembrar o número exato?

Pode citar a instituição e a tendência, por exemplo "dados do IBGE mostram que o analfabetismo é maior entre os mais velhos", sem inventar uma porcentagem. Número errado prejudica a credibilidade do argumento. Quando lembrar o dado com segurança, informe a fonte e o ano.

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